PLUFT, O FANTASMINHA


PLUFT, O FANTASMINHA
Peça adaptada por Luka Severo

PERSONAGENS: Sebastião / Julião / Mãe Fantasma / Pluft, o fantasminha / Perna de Pau, marinheiro pirata / Maribel, menina

PRÓLOGO
O prólogo se passa à frente da cortina. Pela esquerda surgem os marinheiros amigos, cantando. O da frente é Sebastião. Leva um toco de vela aceso ou um lampião. Segue-se Julião, segurando um mapa.

SEBASTIÃO: Deve ser aqui! Veja o mapa, Julião!
JULIÃO: Veja você, Sebastião. (Troca o mapa pela vela do Sebastião.)
SEBASTIÃO (Com o mapa):  Uma casa perdida na areia branca perto do mar verde...Deve estar por perto...
JULIÃO (Olhando para longe): Estou vendo um mar calmo com algumas ondinhas brancas.
SEBASTIÃO(Desanimado): Já andamos muito! Pobre Maribel!
JULIÃO: (Levantando-se) Precisamos salvar a neta do nosso grande capitão Bonança!
SEBASTIÃO: Precisamos pegar o ladrão do tesouro e da neta do grande capitão Bonança!
TODOS: Viva o grande capitão Bonança! Vivaaaa!  Vamos !

(saem pela direita, descendo o proscênio.)
Ao abrir o pano, a Senhora Fantasma faz tricô, balançando-se na cadeira. Pluft, brinca com um barco.
PLUFT: Mamãe! Mamãe, gente existe?
MÃE: Claro, Pluft. Claro que gente existe.
PLUFT (com medo): Mamãe, tenho tanto medo de gente!
MÃE: Bobagem, Pluft.
PLUFT: Ontem passou lá embaixo, perto do mar, e eu vi.
MÃE: Viu o que, Pluft?
PLUFT: Vi gente, mamãe. Só pode ser. Dois.
MÃE: E você teve medo?
PLUFT: Muito, mamãe.
MÃE: Você é bobo, Pluft. Gente é que tem medo de fantasma e não fantasma que tem medo de gente.
PLUFT: Mas eu tenho.
MÃE: Deixe desse medo bobo. Qualquer dia eu vou te levar ao mundo para vê-los de perto.
PLUFT: Ao mundo, mamãe?!!
MÃE: É, ao mundo. Lá embaixo, na cidade...
PLUFT (Muito agitado): Não, não, não. Eu tenho medo de gente, pronto...
MÃE: Vai sim, e acabará com estas bobagens. São histórias demais que o tio Gerúndio conta para você.

(Pluft corre até um canto. De repente Pluft se assusta. Corre até a mãe sem voz e torna ao canto)

PLUFT: Mamãe, olha lá. Estão vindo. Eles estão vindo do mar.
MÃE (vai até ele): É verdade. Lá vêm eles.
(Dirige-se rapidamente para um canto, de onde tira um telefone)

- Zero-zero-zero-zero, alô, prima Bolha? Sou eu. Adivinha só. Gente! Sim...sim...Telefono, querida. Adeus, meu bem, eles estão se aproximando. Vem, Pluft.

PLUFT (Tremendo):  Que medo... que medo... que medo...

(Pluft e a mãe põem-se a escutar o barulho de passadas pesadas. Os dois desaparecem. Entra o marinheiro Perna de Pau. O velho marinheiro amarra a menina à cadeira, e tira o mapa da sacola.)

PERNA DE PAU: Foi aqui que o Capitão Bonança escondeu o tesouro. (Corre até a janela) Deixei aqueles dois patetas para traz. Então eles queriam salvar a netinha do Capitão, hem? Mas o Capitão Bonança Arco-Íris morreu e quem vai entrar no tesouro sou eu! Está ouvindo? Sou eu. Preciso ir até a cidade buscar uma lanterna. Você vai ficar aí presinha na cadeira. Mas não precisa ficar com medinho, que o Capitão Perna de Pau é bonzinho... Ele não vai te matar não. Vamos comprar outro navio e vamos navegar... navegar...navegar... (Faz a mímica de um barqueiro remando) Ninguém te achará nunca! Vou buscar a lanterna e já volto... Navegar... navegar... navegar...

(A menina começa a chorar baixinho, desvencilhando-se na cadeira, tira a mordaça e corre até a janela.)

MARIBEL: Socorro! Socorro! Socorro! Julião! Sebastião! meus amigos... me salvem!

(Sempre choramingando, Maribel com muito medo procura conhecer o sótão, olhando amedrontada para todos os lados; Pluft, que estava à espreita, aproxima-se devagarinho e muito receoso.)
PLUFT: Oi!

(A menina ao ver Pluft, desmaia.)

MÃE: (Chegando) Ora, Pluft, quem mandou você aparecer?... assustou a menina...
PLUFT: (Agarrando-se à saia da mãe)  E agora?
MÃE: Agora temos que esperar que ela volte do desmaio. Coitadinha! (Saindo)  Vou procurar algum remédio para desmaio de gente. Fica aí tomando conta dela.
PLUFT: (Segurando a mãe)  Eu? Mas eu tenho medo de gente, mamãe!
MÃE: Você tem medo dela?
PLUFT: Dela? Muito não. Mas dele, tenho sim!...
MÃE: (De dentro) Ele não volta tão cedo. A cidade é muito longe.

(Pluft, Por fim, na ponta dos pés trata de observar a menina com curiosidade e medo. Um momento a menina se mexe e Pluft sai correndo, quase sem fôlego, voltando depois para tornar a observá-la. Pega nos cabelos da menina e sente prazer.)

PLUFT: Gente é engraçado!...
(Continua a observá-la até que a menina torna a mexer)
- Mamãe!

MÃE (De dentro)  : Que é, Pluft?
PLUFT:  Mamãe, quem sabe a gente pega isto aí e joga lá na noite e depois fechamos bem a porta para o marinheiro não voltar, e ficamos aqui, nós sozinhos, só fantasmas e gente não...
MÃE: (De dentro)  Pluft, quem te ensinou a ser ruim assim?
PLUFT (Sempre olhando a menina em atitude de defesa)  : Não é ruindade não, mamãe...É medo!
MÃE: Você quer mesmo jogar esta menina fora pela janela, Pluft?
PLUFT: Não. Mas ela podia bem ir logo embora. Você não acha? (Radiante)  Mas gente é uma gracinha., mamãe...
MÃE (De dentro)  : Nem sempre, meu filho, nem sempre...

(Pluft se aproxima e cutuca a menina. Esta torna a se mexer um pouco...Pluft se assusta menos. Maribel torna a ver Pluft, se assusta, mas se levanta e olha  Pluft, espantada. Os dois ficam, um em frente do outro, guardando certa distância, em atitude de mútua contemplação. Silenciosos, com respiração presa, ficam assim por algum tempo.)

MARIBEL: (Tensa)  Como é que você se chama?
PLUFT: (Tenso)  Pluft. E você?
MARIBEL: Eu sou Maribel.
PLUFT: Você é gente, não é?
MARIBEL: Sou. E você?
PLUFT: Eu sou fantasma.
MARIBEL: Fantasma, mesmo?
PLUFT: É. Fantasma mesmo. Mamãe também é fantasma.
MARIBEL: (Relaxando)  Engraçado, de você eu não tenho medo!...
PLUFT: (Idem)  Nem eu de você. Engraçado...
MÃE: (De dentro)  Pluft!
PLUFT: É minha mãe. Com licença. Que é, mamãe?
MÃE: (De dentro)  Com quem é que você está falando, meu filho?
PLUFT: (Gabando-se) Ora, mamãe, com gente... (olha para a menina)  Com minha amiga Maribel.
MARIBEL: Mas sua mãe também é fantasma?
PLUFT: Claro, ora! (Ofendido)  Você queria que ela fosse peixe?
MARIBEL: E seu pai?
PLUFT: Meu pai era fantasma da Ópera. Agora ele morreu. Virou papel celofane. (Em tom confidencial) Mamãe ficou muito triste, coitada. Aí viemos morar aqui com tio Gerúndio.
MARIBEL: Quem é tio Gerúndio?
PLUFT: Ele era fantasma de um navio fantasma.
MARIBEL: Será que era o navio de meu avô, o Capitão Bonança Arco-Íris?
PLUFT: É isto mesmo. Ele é meu tio.
MARIBEL: Que coincidência, hem? (Vai até a janela)  O Perna de Pau vai voltar, meu Deus do Céu. Ele quer roubar o tesouro do meu avô e vai me levar, (Começando a chorar) Não... não... não...
PLUFT: Que lindo! Que lindo! Que lindo!
MÃE (Aparece com uma bandeja): Ela está chorando, meu filho. Se acalme queridinha. Aceita um pastel de vento?
MARIBEL: Muito obrigada, senhora Fantasma, a senhora é muito gentil. Mas estou tão nervosa, que nem posso comer. Se meus amigos Julião e Sebastião não chegam, o Perna de Pau vai me levar para o mar...
PLUFT: Mas onde estão seus amigos?
MARIBEL: Não sei. Na certa estão me procurando aí pela praia... tenho que fugir depressa.
PLUFT: Sozinha?!
MARIBEL: É.
PLUFT: Espera! (Pára e respira fundo)  Pronto! Tomei coragem. Mamãe... Eu vou ao mundo procurar os amigos de Maribel. (Entra a mãe.)
MÃE: (entra Feliz com uma malinha) Meu Filho! (Abraçam-se)  Toma aqui, uns pastéis de vento para vocês comerem no caminho. (Ajeita o filho) Cuidado com o sol para não te derreter... Trata de ser um fantasminha decente, sim? Só prega susto naqueles que merecerem. Tenho certeza de que vais gostar do mundo. Abre bem o olho para veres as coisas bonitas que existem por aí e cuida bem da menina.
PLUFT: (De mão dada com Maribel) adeus! Vamos, Maribel, vamos procurar seus amigos.
MARIBEL: Adeus, senhora Fantasma. Voltaremos para procurar o tesouro. Nunca vi família mais simpática, muito obrigada...
MÃE: (Correndo ao telefone)  Zero, zero, zero, zero, alô! Prima Bolha querida, imagine que o meu Pluft resolveu ir!!! Que coragem, hem, prima Bolha? Que coragem!... que coragem...

(Na disparada entram Pluft e Maribel)

PLUFT: (Ajoelhando-se aos pés da mãe e agarrando-se à sua saia)  Lá vem ele, mamãe, lá vem ele! Que medo! que medo! que medo!...
MARIBEL: (Pondo a mordaça e sentando-se na cadeira)  Depressa, para ele não desconfiar...

(Pluft e a mãe desaparecem.. O marinheiro entra com um castiçal)

PERNA DE PAU: Ah! (Tira a mordaça da menina)  Você ainda está acordada, minha bela? Trouxe uma vela... (Olhando para o encosto da cadeira)  Que é isto? O laço afrouxou?

(Deixa o castiçal e começa a apertar o laço. Pluft, nas pontas dos pés, apaga a vela e corre de novo para o seu lugar; a cena escurece)
Oh! O vento apagou a vela. (Tira uma caixa de fósforos do bolso e volta a acender a vela)
MARIBEL: Ai!
PERNA DE PAU: (Virando-se para ela) Que é? O que foi, hem, menina?
MARIBEL: Estou com medo...
PERNA DE PAU: Medo? Perto do Capitão Perna de Pau? (Risada) Ah! ah! ah!
PLUFT: Marinheiro burro!
PERNA DE PAU: Quem falou aí? Bem, venha comigo... você não pode ficar aqui sozinha...

(Perna de Pau sai assustadíssimo puxando Maribel)

PLUFT: Coitadinha... Lá vai ela. Vou pegar aquele bruto, dar um soco nele... mamãe, precisamos salvar a menina!
MÃE: (Entrando)  Se ao menos pudéssemos saber onde está o tesouro !
PLUFT: Coitadinha da Maribel... Não agüento mais. Vou sozinho ao mundo salvar minha amiga... (olha pela janela) Mais gente, mamãe! Os amigos da Maribel. Só pode ser...
MÃE: (Agitadíssima) Visitas! Pastéis! Pastéis! (Sai)

SEBASTIÃO: Deve ser aqui.  
JULIÃO: Pobre Maribel! Temos que salvar a neta do Capitão Bonança!
JOÃO: Temos?
SEBASTIÃO: (com certo medo também) Então vamos primeiro estudar o mapa.

(Sentam-se no proscênio e estudam o mapa. João, que segura o lampião, está tremendo de medo)

- Uma casa velha perdida na areia branca, perto do mar verde...

PLUFT: (Sem ser percebido pelos marinheiros que continuam observando o mapa)  São eles... são eles, mamãe... os amigos de Maribel!... Mamãe! Estou com medo! Eles não vão me pegar, não?

MÃE: (De fora)  Claro que não, filhinho. Estes são amigos.

(Pluft volta e espera, solenemente sentado no meio da cena.)

SEBASTIÃO: (Levantando-se) Vamos! (Meio amedrontados e contarolando a canção do Bonança para criarem coragem, eles tornam a entrar em cena; um por um, ao darem com Pluft, levam um bruto susto e se agarram em fila indiana rodeando o fantasminha). Você está vendo, Julião?
JULIÃO: Você está vendo, Sebastião?
OS DOIS: Um fantasma!

(João, leva um grande susto e desmaia. Pluft puxa o outro que também leva um susto e desmaia)

PLUFT: Oh! Mamãe, os marinheiros se desmancharam...
MÃE (entrando em cena): Que gente mais medrosa, meu Deus! Uns homens deste tamanho com medo de um fantasminha. Coitadinha da Maribel. Arranjou cada amigo!...
PLUFT: (acordando Julião)  Este também está vindo! Marinheiro... Marinheiro...
JULIÃO: (Esfregando os olhos sem ver Pluft e começa a levantar-se, apoiando-se nele)  Precisamos salvar a neta do nosso amigo o capitão Bonança !
PLUFT: Precisamos sim. E eu posso ajudar, marinheiro. Também sou amigo de Maribel, sabe? O Perna de Pau esteve aqui e...
JULIÃO: (fica com medo andando para traz quase sem conseguir falar, não acreditando no que vê) Meu Deusinho do céu! Juro que estou vendo coisas. Sebastião! Sebastiãozinho! Estou vendo monstrinhos.
(Os marinheiros saem correndo com medo)

PLUFT: Marinheiro bobo, sem educação! Vou contar à mamãe que você me chamou de monstrinho. (grita para a mãe e ela entra)  Eles me chamaram de monstrinho, mamãe...
MÃE: Está aí uma coisa que eu não admito... Confundir-nos com monstrinhos...
PLUFT: (percebendo que ele foram embora)  Foram embora. E agora, mamãe, quem vai salvar Maribel?
MÃE: (Andando de um lado para o outro, muito aflita)  Temos que dar um jeito... (Pára e tem uma idéia)  Tive uma ideia: Acho que vou fazer pastéis! (Sai)

PLUFT: Mamãe, volta aqui. Lá vem o dia nascendo. E vem chegando também o Capitão Perna de Pau com a Maribel.
PERNA DE PAU: (Entrando com Maribel, depois de acabar o canto)  Agora está claro como o dia. Claro, ora, pois é dia, ora... (colocando a menina no meio da cena. Tem uma ideia)  Ora, lugar de tesouro é baú... ah! ah! ah! Está vendo, minha bela, tudo agora está calmo... Podemos procurar tranqüilamente... (Ouve-se os amigos de maribel de longe dizendo que viram o perna de pau entrando na casa com ela)  Preciso ser rápido. Vamos ao tesouro. Vamos ao baú... Agora vou dar o golpe do baú... (Ri de si mesmo. Depois abre o baú, tira um travesseiro de matéria plástica e panos, que vai jogando para trás. Junto com os panos vem uma chave que Pluft apanha rapidamente e entrega-a a Maribel. Maribel, muito aflita, exibe a chave ao público, enquanto Perna de Pau descobre o tesouro)  Lá está ele! lá está ele! É meu tesouro... (Tira o cofre com muito cuidado, acaricia-o, ninando-o como se fosse uma criancinha: dorme nenen... Coloca-o sobre um banquinho e tenta abri-lo)  Meu tesourinho! Era uma vez um marinheiro que recebeu um tesouro...(Tenta abrir o cofre com a chave e não consegue)  (Perna de Pau procura a chave de gatinhas pela cena)  Meu tesourinho, espera um minutinho, sim? Venho já te libertar deste cofre. Onde está a chave? Onde está a chave?... (De gatinhas ele sai de cena sempre dizendo "Onde está a chave?")
PLUFT: (Aparecendo) Depressa, Maribel! Venha se esconder aqui conosco enquanto os marinheiros não vem. A chave está conosco, o tesouro está salvo! (Os dois desaparecem)

(Surgem os marinheiros,  armados com redes de caçar borboletas. Eles entram devagarinho com medo e muito cuidao)

SEBASTIÃO: Viva o grande capitão Bonança!

(Os dois procuram por todo lado, dando finalmente com o tesouro.)
OS DOIS: O tesouro!

(Neste momento volta o Perna de Pau de gatinhas e, sem vê-los, redeia-os por entre as pernas, deixando os marinheiros estalados.)

PERNA DE PAU: A chave. Preciso encontrar a chave...

(Continua sem ver os marinheiros e desaparece de gatinhas.)

PERNA DE PAU: (Voltando)  Pelo amor de Deus! Procurem a chave...
OS DOIS (recuperando-se do susto):A chave?!
PERNA DE PAU: (Já de pé, puxando os dois para o proscênio)  A chave do meu tesourinho. Quem achar a chave para mim, eu dou a neta do Capitão Bonança!
OS TRÊS: Bandido! Onde é que você prendeu a Maribel? Anda! Fale!
PERNA DE PAU: (Só então percebendo que está em frente dos três) Uiiii!... (Os dois marinheiros dão uma grande surra, com as redes em Perna de Pau, enquanto se ouve a corneta dos merinheiros-fantasmas. Os quatro se perfilam. Entra Pluft.)
PLUFT: A chave está aqui, marinheiros. Vou abrir o cofre

(Pluft abre o cofre, enquanto Perna de Pau se precipita, arreda Pluft e tira do cofre um retrato, um papel e um rosário.)

PERNA DE PAU: O retrato da neta Maribel!

(Joga o retrato em cima de Maribel, que está ajoelhada perto de Pluft) Uma receita de peixe assado! (Joga a receita) Um rosário! (Faz o sinal da cruz com muito medo e levanta o rosário, deixando-o cair nas mãos de Pluft. Depois volta com avidez ao cofre) 
- E o dinheiro? E o dinheiro?

SEBASTIÂO: O dinheiro está no fundo do mar... Pode ir buscá-lo, Perna de Pau.
PERNA DE PAU: Não! Não! Não! (Sai chorando)
MÃE: (Surgindo com uma bandeja) Esperem! Esperem! Pastel de vento para todos! Pastel!
(Passa com a bandeja. Mariel vê os seus amigos)
SEBASTIÃO: Maribel!
MARIBEL: Sebastião!

(Os dois se abraçam no meio da cena. Sebastião torna a recuar e Maribel vê Julião) 

- Julião !
JULIÃO: Maribel!

(Pluft, muito contente, também se aproxima para ser abraçado mas os dois se afastam com medo.)

PLUFT: Oi!
OS DOIS: (Medrosos)  Oi !
PLUFT: (Depois de uma pausa)  Viva gente !
MARIBEL: Viva fantasma!
TODOS: (Dando as mãos e fazendo uma roda em volta de Pluft)  Viva fantasma!
PLUFT: (No meio da roda)  Viva gente!
TODOS: Vivaaaaaa! (Todos sentados no chão batem palmas, enquanto a senhora fantasma aparece com uma bandeija.)

MÃE: Ei, alguém ai vai querer pastéis de vento?

FIM!

O Santo e a Porca


PEÇA ADAPTADA
O Santo e a Porca
Texto adaptado por Arnaldo de Oliveira.

[...] Dia normal de trabalho, a casa precisando de limpeza, o patrão, os filhos e os outros empregados sem importância ainda não chegaram, Caroba a empregada mais antiga fica vendo televisão enquanto fofoca no telefone e dá rápidas olhadas numa revista de jóias, então desliga o telefone e começa a fazer a faxina, mas bem devagar para não forçar os braços e não suar. Então aparece na tela do computador uma mensagem de email.

Caroba (dá uma espiada): É para o patrão, não custa mesmo dá uma lida e só de olhar para o serviço me dá um cansaço. Se ele perguntar eu digo que pensei que fosse o meu email.
           Senhor Eurico, Sem mais delongas, peço a mão de sua filha em casamento. Vou a sua casa hoje para que possamos acertar os negócios está bem? Fique com Deus e eu com o Meu Santo Antônio. Quem sabe não saiu noivo daí? Um abraço, Eudoro.
Caroba (Pensativa): Quem sabe se eu ganho alguma coisa com isso, e finalmente saiu daqui dessa miséria de salário que aquele velho me dá. Santo Antônio é testemunha de quanto eu ralo nessa casa. Já sei o que fazer.
Eurico (Já chega resmungando): Que vida infernal, todo mundo fica olhando pra mim como se eu fosse algum marginal. Caroba vê se me dá logo um copo d’água.
Caroba (Fecha a cara): O senhor não vai acreditar, o cara da mansão está vindo pra cá e vai pegar algo que o senhor gosta muito. Se não se importa vou a meu quarto para descansar um pouco, vou falar com meu Santo Antônio.
Eurico (Espera Caroba sair e olha para seu cofre que é uma porca): Será que ele quer minhas riquezas também? Demorei muito tempo para conseguir uma bastante recheada, em qualquer caso manterei meu disfarce de pobre e que Santo Antônio me acuda porque se não me ajudar não vou mais pagar o dízimo. Está me ouvindo Santo Antônio?
Caroba (No quarto, pega o celular e liga para Benola): Atende sua besta. Oi Benola. Você não vai acreditar, lembra daquele cara, o qual você quis dar o golpe da barriga? Ele vai vir aqui em casa, por isso se arruma e vem logo pra cá. Se não eu conto o que você faz quando sai daqui e Santo Antônio sabe que você não é nenhuma santa.

Chega então Margarida e seu namorado o qual diz que tem uma mulher que está fazendo tratamento e vai demorar a chegar, desculpa usada para quem ninguém desconfie da trama.

Margarida (Preocupada): Oi papai. O senhor está bem? Está estranho. Aconteceu alguma coisa? Fale logo você está me deixando aflita.
Eurico (Fitando o amigo de Margarida): Está tudo bem. O que esse sujeito está fazendo aqui? Veio filar a bóia daqui de casa? Escutem o Eudoro está vindo aqui não sei pra que, por isso tratem muito bem esse cara.
Caroba (Vem rápido para a sala): Oi a todos. Seu Eurico eu vou fazer a comida hoje, porque os outros empregados não vieram porque pegaram uma gripe, o Santo Antônio e o senhor sabem que eles só estão dando uma desculpa pra não vir trabalhar. Vou fazer a comida de sempre.
Eurico (Virando os olhos): Vai logo então. Margarida e Dodó sentem-se, porque vai demorar para  comida ser feita.

Passado uns trinta minutos, Benola chega junto com Eudoro e antes de entrarem ela o abraça forte, ele derruba ela e bate na porta.

Caroba (sai correndo para atender a porta): Deve ser ele. Oi seu Eudoro, entre não tenha vergonha.
Eudoro: Boa - tarde a todos.

Enquanto o visitante entra, Benola se arruma e entra na casa.

Eurico (Impaciente): Finalmente o Senhor chegou. Estou varado de fome. E seja breve porque já estou cansado de tanto esperar. O que você deseja?
Eudoro (Confuso): Não recebeu meu email? Eu vim...
Caroba (O interrompe): Ele veio pedir sua filha Margarida em casamento. Já estava na hora mesmo, está quase ficando pra titia.
Margarida (Fita Caroba): Isso não é da sua conta. E eu não quero casar com esse cara. É velho demais para mim.
Benola: Você ainda é uma criança, cresce e aparece fedelha.
Margarida (Triste): O que eu fiz para merecer isso meu Santo Antônio?

Caroba aparece então com a comida que é sua especialidade sanduíches de mortadela.

Caroba: Só tem um pra cada um, sabem como é a vida não é tão fácil para todos, e como seu Eurico é um pão duro...
Eurico (Surpreso): Como é que é? Santo Antônio sabe que eu não tenho mais condições de trabalhar e o que eu ganho com a aposentadoria é muito pouco. Coloque- se no seu lugar e fale só quando for chamada.
Eudoro (Aproximando-se de Eurico): Eu posso ajudar você, basta que eu me case com sua filha e uma despesa a menos será para o Senhor.
Eurico (Pensativo): Não tinha visto esse lado do negócio ainda...
Margarida (Desacreditada): Papai...
Eurico: Só estou pensando no que vai ser melhor para você minha filha, não custa nada dar uma chance para o cara, e você e tão santa minha filha, nunca me deu desgosto ao contrário de certas pessoas. (Fixa o olhar em Benola)
Benola: As aparências enganam e meu Santo Antônio sabe de toda mentira e podridão sobre Margarida.
Eurico: Chega!Margarida você vai se casar com esse homem, nem que eu tenha que te levar arrastada até o altar. Pense um pouco mais na família, não tenho condições de sustentar tanta gente.
Eudoro (Passa a mão no corpo para demonstrar que não está tão acabado): Garanto que você não vai se arrepender. Sei como agradar uma cabritinha.
Margarida: Ai que nojo meu Santo Antônio.
Benola (Fica se abanando): Que pedaço de mau caminho, Santo Antônio.
Eudoro (Tira do bolso um enorme papel que parece carta de um fã para seu ídolo): Aqui estão todos os bens que eu possuo...
Eurico (O interrompe): Um papel enorme?Não tem casamento então.
Eudoro: É uma lista de todos os bens que eu tenho, se eu me casar com sua filha, uma parte será sua.
Eurico (Olha para a porca que está em uma mesinha junto com a imagem de Santo Antônio e a toca): Quanto?
Eudoro: Quinze por cento do que possuo.
Caroba: Isso é um horror.
Eurico: Alguém pediu sua opinião?

Caroba fica ao lado de Margarida para consolá-la.

Margarida (Abalada): Não acredito no que você está fazendo.
Benola (Com indiferença): Nem eu. Isso é um absurdo. Olha pra essa criatura. (Aponta para Margarida).
Eurico (Feliz e decidido): Negócio fechado.
Eudoro: Adeus então. Margarida meu amor não se desespere eu volto. Obrigado Santo Antônio, sabia que o Senhor não ia me decepcionar.
Eurico (Olhando para o papel): Ele nunca me decepcionou. Dodó venha e chame Pinhão para que providenciemos os preparativos para a cerimônia.

Fica na sala Benola, Caroba e Margarida.
Dodó sai da casa e seu Eurico vai para o outro cômodo

Caroba: Não se preocupe gata. A gente vai dar um jeito nisso (Olha para Benola).
Benola: Margarida, você está fazendo tempestade em copo d’água. Se fosse comigo as coisas seriam bem diferentes, eu seria dona de tanta coisa, seria chique.
Caroba: Seu tempo já foi Benola. Olhe Margarida engole esse choro, até que o homem é bem conservado, o Dodó também não é lá essas coisas...
Margarida (Espantada): Você sabe do Dodó?
Benola (Rir ironicamente): Até Santo Antônio sabe. Essa cara de anjo só engana teu pai.
Aquele coroa, não sabe a cabritinha que tem.
Caroba: Ainda bem que eu tenho que me respeite.
Benola (Vira os olhos): O Pinhão? Até que ele é bonito, pena que não é rico porque se fosse...

Caroba (Agitada): Faria o que?
Benola (Suspira): Nada, só estava pensando alto.
Margarida (Triste): E agora o que eu vou fazer meu Santo Antônio? Seu tivesse dinheiro iria embora desse lugar.

Eurico ouve a palavra dinheiro e entra na sala.

Eurico (Aflito vai até a porca): Que dinheiro, eu não posso comprar um vestido de casamento, você sabe filha.
Margarida: Santo Antônio me de forças. Papai ninguém falou...
Caroba: A sua filha estava pensando na riqueza que ela vai obter quando se casar, já está conformada e não vê a hora de ir pro altar.
Eurico (Estranha): É verdade?Então porque está chorando?
Caroba: É a emoção. Devia ouvir o que ela estava falando do playboy era só elogio.

Dodó e Pinhão chegam. O noivo de Caroba a abraça e fala com Eurico

Pinhão: Seu Eurico precisamos ir a igreja para ver como vai ser feita a ornamentação e falar com o padre sobre o casamento.
Eurico (Aflito): E agora, não tenho dinheiro para nada nem para comprar comida, o que eu vou fazer meu Santo Antônio?
Benola (Pega no braço do Pinhão): Oi Pinhão.
Caroba (Com raiva): Se afaste! Ele é meu homem. Você entendeu?
Pinhão (Constrangido): Seu Eudoro disse que tudo é por conta dele. O Senhor só precisa dizer o que fazer.
Dodó: Margarida posso falar com você?
Eurico (Se intromete e não deixa Margarida falar): Ela agora é comprometida, se quiser falar que seja na frente de todos.
Pinhão: O Senhor vem ou não? Precisamos resolver isso logo.
Eurico: Vamos todos.

Saem Dodó, Eurico, Margarida e Pinhão. Caroba e Benola ficam e pensam no que fazer.

Benola: Não acredito que a princesinha vai ficar rica. (Olha para o espelho) Sou mais bonita que aquela tripa seca.
Caroba (Impaciente): Fica calada despeitada. Quem da às ordens aqui sou eu. Precisamos dar um jeito de conseguir a grana que aquele playboy tem. Mas como?
Benola (cruza os braços): Que tal envenenar o cara? Dar um tiro em seu coração ou deixar que eu use os meus artifícios.
Caroba (Rir): Fala sério que artifícios? Vê se te enxerga. A Margarida se casa, matamos o cara e deixamos a culpa no seu Eurico.
Benola: Quem diria. Que uma pessoa como você seria capaz de fazer tal coisa.
Caroba: Pelo menos eu sirvo pra alguma coisa. Vamos à igreja para dar consolo para a sua maninha. (Rir)
Benola: Você não presta. Queridinha.

Na igreja, Margarida fita a cruz e a seu lado Dodó permanece. Eurico e Pinhão esperam o padre.

Eurico (Avista o padre): Finalmente o velho chegou. Padre nos viemos marcar a data do casamento.
Padre Pedro (Cansado): Finalmente Margarida vai desencalhar, e com o Dodó?
Eurico: Com aquele trate? O Senhor bateu com a cabeça? Nunca que minha filha ia se envolver com esse tipo de gente.
Padre Pedro: Sei... Então com quem será então?
Pinhão: Com seu Eudoro o cheio da grana.
Padre Pedro (Grita): Eu sabia, ela está grávida! Bem que eu desconfiava. Só tem a cara de anjo. Este mundo está perdido. Veio casar rápido para a barriga não aparecer.
Margarida: Eu não estou grávida, o Senhor entendeu tudo errado...
Padre Pedro (Desacreditado): Eu te falei tanto minha filha, porque você fez isso? Estragou sua vida...
Eurico: Ela não fez nada Padre. Seu Eudoro veio pedir a mão dela e como eu sou um pai dedicado, que sabe o que é bom para a filha, eu pedi que ela aceitasse.
Dodó (Inconformado): O senhor a forçou, seu mentiroso, só pensa no dinheiro.
Eurico: O que você está fazendo aqui empregadinho?
Margarida: Eu quero que ele fique aqui.
Eurico: O que você tem com esse sujeito?
Margarida: Nada...
Dodó (Furioso): Agora sou eu que vou sair daqui.
Margarida (Cai): Não...

Chegam Caroba e Benola. Sai Dodó

Caroba (Corre até Margarida): O que aconteceu?
Padre Pedro: Ela está perdendo a criança. Ai meu Senhor. Ai Meu Santo Antonio.
Benola (Põe as mãos no rosto): Não acredito que perdemos o barraco. Isso é culpa sua Caroba e Santo Antônio sabe disso.
Caroba: Fica quieta sem noção. O que é que houve aqui?
Eurico (Impaciente): Não é da sua conta. Padre a cerimônia vai ser amanhã. Minha filha já não suporta mais esperar. Santo Antônio sabe que é verdade.
Padre Pedro: E qual vai ser a forma de pagamento? Sei que o senhor tem algum, sei que me compreende.
Eurico (Assustado): Que calúnia meu Santo Antônio. Eu preciso ir!

Eurico se retira rapidamente sem se importar com ninguém

Pinhão: Seu Eurico...
Benola: Padre preciso me confessar. E tem que ser agora, ande velho interesseiro.
Padre Pedro: Mais uma perdida Senhor. Tende piedade dessa coisa. (Olha para Benola)
Caroba: Vai atrás do Velho Eurico, Pinhão. E fale pro Eudoro que o casamento é amanhã ao meio-dia.

Sai Benola e Pinhão

Caroba: Sei como te livrar daquele playboy, mas você não vai gostar. Gata você tão santa que seria incapaz...
Margarida (Desesperada): Eu faço qualquer coisa para me livrar daquele trambolho.
Caroba (Rir): Verdade? Que tal matar seu pai e colocar a culpa em Eudoro?Você se casa e de brinde leva uma riqueza incalculável. Mas é claro que eu vou querer a minha parte nisso né bonitona.
Margarida (Confusa): Eu não sei...
Caroba (Irritada): Deixa de ser molenga minha filha. (Dá um tampa no ombro da amiga). É simples depois do casamento você dá esse remédio para seu pai. (Entrega o remédio). Mas tem que ser diluído na água, eu cuido do resto.
Margarida: Mas eu gosto muito de meu pai, não quero ser uma assassina.
Caroba (Com raiva): Então viva como uma doméstica para sempre e com um marido de meia idade.

Caroba se levanta e quando vai sair, Margarida se levanta

Margarida (Aflita): Eu farei então. E que meu Santo Antônio me ajude.
Caroba: Ótimo. Você tem muito que aprender queridinha. Veja como eu sou vivida. Vamos pra casa.

Em casa Eurico procura por sua porca recheada sem saber que Pinhão chegará em pouco tempo.

Eurico (Angustiado): Ai meu Santo Antônio, aquele velho descobriu tudo. Preciso esconder essa porca em outro lugar. Mas onde? Já sei vou dar a Margarida e assim que ela se casar pego de volta. Eu sou um gênio. Agora vou me deitar.

Pinhão escondido ouve tudo pega a porca examina e descobre que tem muito dinheiro
Pinhão: Há velho rabugento! Se finge de coitado, mas é playboy.É hoje que isso vai mudar.(Pega a porca e sai)

Chegam então Caroba, Margarida e Benola
Margarida (Preocupada): Papai?
Benola (Bufa): Ai como você é enjoada queridinha. Para de fingir que é boa samaritana. Todos já sabem que você é como todas as outras.
Caroba: Ó tripa seca. Fica na tua. Margarida fica calma, seu pai já deve ter chegado.
Margarida: Eu estou com medo. Não queria ter de fazer aquilo...
Benola (Rir): Que novidade. Quer que deixe a luz ligada para a cabritinha dormir é?(Irônica)
Caroba: Vai embora bundona. Ou você quer ser desmoralizada agora?
Benola: Quanta grosseria. Tchau cabritinha e cabritona.
Caroba: Vamos temos que nos preparar para amanhã.
Margarida (Aflita): O que você vai fazer? Eu vou dar o remédio e depois? Ai meu santo Antônio. (Anda de um lado para o outro). Matar ou não matar eis a questão.
Caroba: Deixe comigo queridinha. Você ficou com a parte mais fácil. Depois de tudo você vai ficar rica e com seu homem. Eu na miséria e escuridão. Você nunca vai encontrar uma amiga que nem eu. Sou a salvação da Pátria e não recebo nada por isso.
Margarida: Terá a minha amizade para sempre. (Dá um abraço em Caroba)
Caroba (Tem nojo): É por isso que eu ajudo. Para não perder os amigos.
Margarida: Queria falar com Dodó, ele ficou muito chateado...
Caroba: Homem é assim mesmo. Relaxe deixe tudo comigo. Eu falo com Dodó, agora vai descansar porque amanhã vai ser um grande dia.
Margarida (Aliviada Suspira): Obrigada. Muito obrigada. (Dá outro abraço em Caroba).

Caroba espera Margarida sair, limpa o rosto e nessa hora Benola volta

Benola: Já acabou com a reunião cavalona?
Caroba: Cala a matraca. Ouça quero que amanhã você fique enrolando o Eudoro depois do Casamento.
Benola (Estranha): Pra que? Aquele abusado não quer nada comigo.
Caroba: Faça o eu digo ou então...
Benola: Ok cabritona.
Caroba: Vamos Dormir. Tripa seca. (Se retira)
Caroba acorda e liga para Dodó

Caroba (Impaciente): Atende logo. Oi seu Dodó. Margarida pediu que você fosse ao casamento, ela disse que você não se arrependerá. Ta ok? Ótimo. (Desliga o celular). Um já foi.
Benola: O que você está fazendo queridinha? Não interessa, vou indo já pra igreja. Preciso me confessar.
Caroba (Rir): De novo queridinha? Ande logo então. E não se esqueça do que combinamos.
Benola: Ta velha coroca.

Então caroba pega uma faca da mesinha e guarda em seu decote.
Aparece Margarida pronta para o casamento.

Margarida (Triste): Como estou?
Caroba (Suspira): Uma Deusa. Preparada queridinha?
Margarida: Sim. Que Santo Antônio nos ajude. Será que Dodó vai? Coitado.
Caroba (Vira os olhos): É claro que ele vai, ele gosta muito de você. Só falta o Eurico. Ainda não acordou?
 Margarida: Já. Eu o vi chorando, parece até que adivinhou que vai morrer hoje, quem mandou forja esse casamento. Agora que agüente as conseqüências.
Caroba (Surpresa): Quem diria a filha santa querendo o mal do próprio velho.
Margarida: Aprendi com a melhor não é verdade. Agora mudemos de assunto se não o coroa pode ouvir.

Se Eurico aparece e quando olha para a mesinha não encontra a porca e entra desespero

Eurico (Apreensivo): Cadê a minha porca?
Caroba: Eu não sei. Benola saiu cedo talvez ela tenha pegado.
Eurico: Não acredito. Santo Antônio você não me protegeu, agora vou atrás daquela bandida.
Margarida (Fala alto): Não vai coisa nenhuma, temos um casamento pra ir. E já está quase na hora. Vamos.
Eurico: A porca é muito mais importante. Preciso...
Margarida (Com raiva): Se você não for, não vai ter casamento, e você vai morrer...
Eurico: O que?
Caroba (Tenta amenizar): Morrer de vergonha do seu Eudoro.
Margarida (Impaciente): Vamos logo!

Se retiram para a igreja. Lá Benola, Dodó, Eudoro, Pinhão e Padre Pedro os aguardam

Dodó (Curioso): O que tem no lençol? Algum presente para Caroba?
Pinhão (Rir): Um presente para a igreja. Vou dá-lo para o Padre Pedro quando terminar a cerimônia.

Benola se dirige para Eudoro

Benola (Provoca): O que você viu naquela tripa seca? Você sabe que eu sou muito melhor do que ela.
Eudoro: Você é uma qualquer, saia do meu caminho.
Benola: Não cuspa no prato que comeu, nós quase nos casamos anos atrás.
Eudoro (Impaciente): Quem vive de passado é museu. Agora sai daqui.
Benola (Se dirige ao Padre Pedro): Até que o senhor dá um caldo, pena que é padre que desperdício.
Padre Pedro: Sai daqui demônio. Santo Antônio ponha juízo na cabeça dessa criatura. (Olha para cima)

Chegam então Caroba, Eurico e Margarida.
Eurico pega no braço da filha e se dirige para o altar, porém Margarida cansada daquela farsa sai correndo para o altar e larga do pai.

Margarida (Impaciente): Acabe logo com isso. Rápido vai.
Padre Pedro: Calma minha filha.
Margarida: Seu velho rabugento pare de enrolar. (Pega na mão de Eudoro). Na saúde, na doença e blá blá blá.

Eudoro entrega as alianças, o padre as abençoa, e declara que ambos estão casados.
Depois os convidados e os pombinhos vão para a sacristia, com exceção do Padre e de Pinhão

Pinhão: Padre tenho um presente para o senhor. (Entrega à porca)
Padre Pedro (Pega a porca examina e Grita): Obrigado Senhor, eu sabia que você mandaria alguém de boa fé para ajudar a paróquia.

Retiram-se para a sacristia. E lá o Padre mostra o presente é surpreendido por Eurico

Eurico (Grita): Padre safado foi você que me roubou. Tu vai pro andar de baixo malandro. Eu vou te matar. (Coloca as mãos no pescoço do padre)

Enquanto os outros tentam separam a briga, Margarida coloca o veneno em um copo com água e espera o momento certo de agir. Pinhão e Dodô retiram o Padre da sala e Benola o Eudoro


Margarida: Papai não se exalte tome um pouco d’água. (Entrega o copo)
Eurico: Obrigado, filha espero não ter estragado esse dia especial para você. (Toma a água adulterada)
Margarida (Triste): Não se preocupe papai. Adeus.

Eurico cai morto no chão. Caroba pega a faca no decote do vestido e ataca o coração de Eurico
Caroba: Pronto. Agora você precisa colocar essa faca na mão de Eudoro. Como Dodó é policial pode prendê-lo em flagrante. Vai chame Eudoro. (Dá a faca para Margarida)

Na parte central da igreja, Pinhão, Dodó, Benola, Eudoro e o padre tentam entender o que aconteceu

Padre Pedro (Com raiva): Isso é culpa sua seu abusado. (Aponta para Pinhão)
Pinhão: Não sei do que você está falando.
Padre Pedro (Se levanta): Ora seu...
Margarida: Eudoro papai quer falar com você.

Ao chegar na sacristia Margarida espera que Eudoro vejo Eurico no chão então ela joga a faca do lado dele e as duas mulheres gritam, os outros chegam, Dodó prende Eudoro.

Eudoro (Assustado) Eu não fiz nada.
Margarida: Foi terrível, seu monstro como pode?
Benola (Chega perto do pai e grita): Não pode ser.
 Dodó: Você está preso. (Pega Eudoro e leva para longe com a ajuda de Pinhão)
Padre Pedro: Pobre Diabo.

No dia seguinte o enterro é feito
Padre Pedro: Descanse em paz seu Eurico, vamos sentir saudades, é claro que você vai receber o que merece abusado. (Se retira)
Margarida: A única coisa boa de tudo isso é que podemos ficar juntos no final de tudo.
Dodó: Pois é.
Benola (Triste chega até a cruz): Papai, não! (Grita)
Caroba: Pobre tripa seca.
Pinhão: Vamos embora. O velho já recebeu o que merecia, agora que sofra pra sempre.

Todos se retiram em silêncio

Fim